sexta-feira, 13 de março de 2015

Notícias Recentes sobre Fósseis de Ancestrais Humanos

Descoberta de novo crânio pode reescrever história da espécie humana

Fósseis de 1,8 milhão de anos encontrados na Geórgia sugerem que a aparência dos ancestrais humanos era muito variada; e que os 'Homo habilis', 'Homo rudolfensis' e 'Homo erectus' poderiam ser uma mesma espécie

Crânio 5
Segundo os pesquisadores, o Crânio 5 pertenceu a um indivíduo da espécie Homo erectus. Ele, no entanto, era diferente de outros fósseis encontrados anteriormente, o que sugere que a espécie era mais variada do que se pensava(Museu Nacional da Geórgia/VEJA)
Um crânio descoberto em 2005 na região de Dmanisi, na Geórgia, pode obrigar os cientistas a reescreverem toda a história de evolução da espécie humana. O fóssil possui aproximadamente 1,8 milhão de anos e é o mais antigo crânio completo já encontrado por pesquisadores.

Suas características físicas - a caixa craniana pequena e o grande maxilar - nunca haviam sido encontradas em conjunto antes, desafiando as divisões traçadas pelos cientistas para separar as espécies de ancestrais humanos. Segundo um estudo publicado nesta quinta-feira na revista Science, a descoberta sugere que os primeiros membros do gênero Homo, aqueles classificados como Homo habilisHomo rudolfensis eHomo erectus, faziam parte, na verdade, da mesma espécie - seus esqueletos simplesmente pertenceriam a indivíduos de aparência diferente.


CONHEÇA A PESQUISA
  Título original: A Complete Skull from Dmanisi, Georgia, and the Evolutionary Biology of Early Homo
Onde foi divulgada: periódico Science
Quem fez: Christoph P. E. Zollikofer, entre outros pesquisadores
Instituição: Museu Nacional da Geórgia, entre outras
Dados de amostragem: Análises de cinco crânios encontrados na região de Dmanisi, na Geórgia
Resultado: Os pesquisadores concluíram que, apesar das diferenças entre si, os crânios pertenceram à mesma espécie de ancestral humano, que viveu na região há 1,8 milhão de anos.

Essas espécies foram todas encontradas na África, em períodos que vão até 2,4 milhões de anos atrás. Os pesquisadores usaram a variação no formato de seus crânios para classificá-las como espécies diferentes, porém aparentadas. No entanto, desde a descoberta dos primeiros fósseis, os cientistas têm enfrentado dificuldades para traçar uma linha evolutiva entre elas, sem conseguir apontar de maneira definitiva qual deu origem às outras e aos Homo sapiens.

O novo crânio descoberto na Geórgia - que ganhou o nome de Crânio 5 - combina entre suas características uma caixa craniana pequena, um rosto excepcionalmente comprido e dentes grandes. Até agora, o sítio arqueológico só foi parcialmente escavado, mas se revelou um dos mais importantes já descobertos. O fóssil foi encontrado ao lado dos restos mortais de outros quatro ancestrais humanos primitivos, um grande número de ossos de animais e algumas ferramentas de pedra.

Segundo os cientistas, os fósseis estão associados ao mesmo local e período histórico, sugerindo que as ossadas pertenceram todas à mesma espécie de ancestral humano. Isso forneceu aos pesquisadores uma oportunidade única para comparar os traços físicos de indivíduos de uma mesma espécie e o que descobriram foi uma grande variedade de tamanhos e formas, mas nada diferente da variação encontrada entre os humanos modernos. "Graças à amostra relativamente grande de Dmanisi, pudemos ver a grande diferença que existia entre os indivíduos. Essa variação, porém, não é superior à encontrada entre populações modernas de nossa própria espécie, dos chimpanzés ou bonobos", diz Christoph Zollikofer, pesquisador do Instituto e Museu de Antropologia, na Suíça, e um dos autores do estudo.

crânio
A pequena caixa craniana e o grande maxilar do hominídeo surpreendeu os cientistas e pode levar a uma mudança no modo como se escreve a evolução do gênero Homo(Guram Bumbiashvili, Museu Nacional da Geórgia/VEJA)
 
A pequena caixa craniana e o grande maxilar do hominídio surpreenderam os cientistas e pode levar a uma mudança no modo como se escreve a evolução do gênero Homo.

Duas espécies em um mesmo crânio - O Crânio 5 foi escavado em duas etapas pelos pesquisadores. Primeiro, eles descobriram a pequena caixa craniana, no ano 2000. Seu tamanho diminuto - ela media apenas 546 centímetros cúbicos, em comparação aos 1350 centímetros cúbicos dos humanos modernos - sugeria a existência de um cérebro pequeno. Durante os anos seguintes, continuaram escavando a região, em busca do maxilar que iria completar a figura.
Em 2005, finalmente encontraram os ossos que faltavam, mas, ao contrário do esperado, o maxilar era enorme, com dentes grandes. "Se a caixa craniana e o resto do Crânio 5 fossem encontrados como fósseis separados, em lugares diferentes da África, eles seriam atribuídos a espécies diferentes", diz Christoph Zollikofer.

Durante os oito anos seguintes, os pesquisadores realizaram estudos comparativos dos cinco crânios encontrados no local. Como resultado, concluíram que eles pertenceram à mesma espécie de ancestrais humanos, surgidos pouco tempo depois de o gênero Homodivergir do Australopithecus e se dispersar da África. "Os fósseis de Dmanisi parecem muito diferentes uns dos outros, e seria tentador classificá-los como espécies diferentes", diz Zollikofer. "No entanto, sabemos que esses indivíduos vieram do mesmo local e tempo geológico, então eles devem, em princípio, representar uma única população de uma única espécie." Segundo os cientistas, diferenças de idade e sexo devem ser responsáveis pelas principais diferenças morfológicas.
crânios
Modelos dos cinco crânios encontrados na Geórgia. Eles estão colocados em ordem, do 1 ao 5, demonstrando a diferença que existia entre os indivíduos(M. Ponce de León and Ch. Zollikofer/VEJA)
Modelos dos cinco crânios encontrados na Geórgia. Eles estão colocados em ordem, do 1 ao 5, demonstrando a diferença que existia entre os indivíduos
Assim, os pesquisadores sugerem que a ideia da existência de várias espéciesHomo - cada uma especializada para um ambiente do Terra - seja derrubada. Ao contrário, eles defendem a existência de uma única espécie Homo erectus, surgida no continente africano, capaz de se adaptar aos diferentes ecossistemas e que viria dar origem aos seres humanos modernos. A hipótese não deve ser aceita de imediato pela comunidade científica, mas dar origem a discussões acadêmicas e mais estudos que podem, eles sim, mudar o modo com a história evolutiva da espécie humana é narrada.


Cientistas anunciam descoberta do mais antigo fóssil humano da História

Vestígios de mandíbula de Homo habiliscom cerca de 2,8 milhões de anos foram encontrados na Etiópia

por 

Fóssil de mandíbula descoberto na Etiópia - Divulgação
Publicidade
RIO - Entre três milhões e dois milhões de anos atrás, na África, os australopitecos, ancestrais humanos mais parecidos com macacos, mas já capazes de andar sobre os dois pés, aos poucos deram lugar para os primeiros representantes do gênero Homo, com cérebros maiores e porte mais ereto, em um importante passo na evolução dos homens modernos (Homo sapiens). Os parcos e fragmentados registros fósseis desta época, no entanto, tornam difícil o estudo desta transição, num quebra-cabeça que tem desafiado os cientistas há décadas e agora ganha mais uma peça fundamental. Encontrados há apenas dois anos na árida região de Ledi-Geraru, no estado de Afar da atual Etiópia, fragmentos de uma mandíbula datados em 2,8 milhões de anos podem ser os mais antigos restos de um indivíduo do gênero Homo conhecidos, anteriores em 400 mil anos aos mais velhos que já tinham sido achados.
Dentes menores, mas queixo ainda recuado
Com dentes menores que os vistos nos australopitecos e um formato mais proporcional e peculiar, os pesquisadores acreditam que a mandíbula reconstruída pertenceria a um representante da espécie Homo habilis, ou pelo menos a um elo de passagem entre nossos antepassados mais próximos dos macacos para os mais humanos, já que seu queixo também apresenta um recuo normalmente associado aos nossos ancestrais mais “primitivos”. Além disso, a idade do fóssil e o local onde foi encontrado o coloca perto no tempo e no espaço ao fóssil da famosa Lucy, que está entre os mais bem preservados e antigos restos de um indivíduo da espécie Australopithecus afarensis, encontrados em 1974 no sítio de Hadar e datados em pouco mais de três milhões de anos.

— O registro fóssil no Leste da África, entre dois milhões e três milhões de anos atrás, é muito pobre, e existem relativamente poucos fósseis que podem nos dar informações sobre as origens do gênero Homo — lembrou Brian Villmoare, paleoantropólogo da Universidade de Nevada, nos EUA, e um dos líderes da pesquisa, publicada na edição desta semana da revista “Science”, em teleconferência ontem. — Este, porém, é um dos períodos mais importantes da evolução humana, já que, nesta época pouco conhecida, os humanos fizeram a transição dos mais símios australopitecos para os padrões adaptativos modernos vistos nos Homo. Assim, o que há de tão especial nessa mandíbula não é só sua idade, muito mais velha que qualquer exemplar de Homo conhecido até agora, mas também sua combinação única de traços, da altura da mandíbula ao formato dos dentes, que a faz uma clara transição entre os australopitecos e os Homo.

O fato de ter características tão claras alinhadas com as dos Homo há 2,8 milhões de anos nos ajuda a restringir o tempo dessa transição e sugere que ela foi relativamente rápida.

Em outro artigo também publicado na “Science” desta semana e que acompanha o estudo sobre o fóssil, os cientistas procuraram descrever o contexto geológico e ambiental onde ele foi encontrado. Há tempos os especialistas desconfiam que mudanças climáticas ocorridas nesta época na África, com exuberantes selvas dando lugar a uma paisagem mais árida, parecida com as atuais savanas, estimularam um processo de adaptação que foi responsável pelo fim dos australopitecos e emergência dos Homo. Na mesma área onde a mandíbula foi encontrada, os pesquisadores acharam fósseis de espécies pré-históricas de antílopes, elefantes, hipopótamos e outros animais relacionados com habitats mais abertos, dominado por grama alta e arbustos e com árvores mais espaçadas.

— Podemos observar esse sinal de maior aridez há 2,8 milhões de anos na fauna comunal de Ledi-Geraru — disse Kaye Reed, professor da Universidade do Estado do Arizona, outro integrante da equipe responsável pela descoberta, que participou da teleconferência da Etiópia. — Ainda é cedo para dizer que isso significa que as mudanças climáticas foram responsáveis pela origem do gênero Homo. Para isso, precisamos de uma amostragem maior de fósseis de hominídeos e é por isso que continuamos a vir para a região de Ledi-Geraru em busca deles. O que sabemos é que esses Homoantigos conseguiam viver neste habitat razoavelmente extremo e que, aparentemente, a espécie de Lucy, osAustralopithecus afarensis, não.
Já um terceiro estudo relacionado ao tema, também publicado ontem, mas na revista “Nature”, revisitou o fóssil original que permitiu a identificação pela primeira vez do Homo habilis há pouco mais de 50 anos e revelou que, entre 2,1 milhões e 1,6 milhão de anos atrás, pelo menos três espécies representantes do gênero conviveram na África: além do H. habilis, o H. erectus e o H. Rudolfensis. Encontrados nos anos 1960 pelo respeitado e já falecido paleoantropólogo britânico Louis Leakey na região da Garganta de Olduvai, na Tanzânia — e que, por isso, recebeu o apelido de “Berço da Humanidade” —, os restos fragmentados de crânio e mandíbula serviram de base para uma reconstrução digital em 3D de como seria a cabeça completa de um representante da espécie, evidenciando características que antes não puderam ser notadas pelos especialistas.



Novo fóssil apareceu como se “sob demanda”

Segundo os pesquisadores, embora a mandíbula do H. habilis realmente pareça ter um formato mais parecido com o de espécies mais “primitivas”, como os australopitecos, a reconstrução do crânio indica que o cérebro era bem maior do que se pensava, com tamanho similar ao dos seus “primos” Homo de então e mais próximo do dos humanos modernos. Até recentemente, o tamanho do cérebro era um dos principais parâmetros usados para distinguir as três espécies, mas, com esse estudo, os cientistas defendem que a caracterização deve se focar nos traços de suas faces, especialmente das mandíbulas.
Ainda de acordo com os pesquisadores, a reconstrução digital do fóssil, junto com estudos anteriores de outros restos de antecessores dos humanos atuais encontrados na Tanzânia e na Etiópia, indicam que as três linhagens do gênero Homo se separaram de um ancestral comum provavelmente há mais de 2,3 milhões de anos, cujo exemplo até agora desconhecido pode ser justamente o indivíduo cuja mandíbula foi achada em Ledi-Geraru e descrito na “Science”.

— Ao explorar digitalmente como o Homo habilis se parecia, pudemos inferir a natureza de seu ancestral, mas nenhum fóssil dele era conhecido — conta Fred Spoor, pesquisador do University College London e do Instituto Max Planck de Antropologia Evolucionária e um dos autores do artigo na “Nature”. — Mas, agora, a mandíbula de Ledi-Geraru apareceu como se “sob demanda”, sugerindo uma ligação evolucionária plausível entre o Australopithecus afarensis e o Homo habilis.

Nenhum comentário:

Postar um comentário